sábado, 22 de março de 2014

A Samaritana - Domingo III da Quaresma - ano A





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 LEITURA I Ex 17, 3-7
Leitor – Naqueles dias, o povo israelita, atormentado pela sede, começou a altercar com Moisés, dizendo:

Povo – Porque nos tiraste do Egipto? Para nos deixares morrer à sede, a nós, aos nossos filhos e aos nossos rebanhos?
Leitor – Então Moisés clamou ao Senhor, dizendo:
Moisés – Que hei-de fazer a este povo? Pouco falta para me apedrejarem.
Leitor – O Senhor respondeu a Moisés:
Deus – Passa para a frente do povo e leva contigo alguns anciãos de Israel. Toma na mão a vara com que fustigaste o Rio e põe-te a caminho. Eu estarei diante de ti, sobre o rochedo, no monte Horeb. Baterás no rochedo e dele sairá água; então o povo poderá beber.
Leitor – Moisés assim fez à vista dos anciãos de Israel. E chamou àquele lugar Massa e Meriba, por causa da altercação dos filhos de Israel e por terem tentado o Senhor, ao dizerem: «O Senhor está ou não no meio de nós?




EVANGELHO –Jo 4, 5-42


Leitor – Naquele tempo, chegou Jesus a uma cidade da Samaria, chamada Sicar, junto da propriedade que Jacob tinha dado a seu filho José, onde estava o poço de Jacob. Jesus, cansado da caminhada, sentou-Se à beira do poço. Era por volta do meio-dia. Veio uma mulher da Samaria para tirar água. Disse-lhe Jesus:
Jesus – Dá-Me de beber.
Leitor – Os discípulos tinham ido à cidade comprar alimentos. Respondeu-Lhe a samaritana:




Samaritana – Como é que Tu, sendo judeu, me pedes de beber, sendo eu samaritana?
Leitor – De facto, os judeus não se dão com os samaritanos. Disse-lhe Jesus:
Jesus – Se conhecesses o dom de Deus e quem é Aquele que te diz: ‘Dá-Me de beber’, tu é que Lhe pedirias e Ele te daria água viva.


Leitor – Respondeu-Lhe a mulher:
Samaritana – Senhor, Tu nem sequer tens um balde, e o poço é fundo: donde Te vem a água viva? Serás Tu maior do que o nosso pai Jacob, que nos deu este poço, do qual ele mesmo bebeu, com os seus filhos e os seus rebanhos?
Leitor – Disse-Lhe Jesus:
Jesus – Todo aquele que bebe desta água voltará a ter sede. Mas aquele que beber da água que Eu lhe der nunca mais terá sede: a água que Eu lhe der tornar-se-á nele uma nascente que jorra para a vida eterna.
Leitor –  Suplicou a mulher:


Samaritana – Senhor, dá-me dessa água, para que eu não sinta mais sede e não tenha de vir aqui buscá-la.
Leitor –  Disse-lhe Jesus:
Jesus – Vai chamar o teu marido e volta aqui.
Leitor – Respondeu-lhe a mulher:
Samaritana – Não tenho marido.
Leitor – Jesus replicou:
Jesus – Disseste bem que não tens marido, pois tiveste cinco e aquele que tens agora não é teu marido. Neste ponto falaste verdade.
Leitor – Disse-lhe a mulher:


Samaritana – Senhor, vejo que és profeta. Os nossos antepassados adoraram neste monte, e vós dizeis que é em Jerusalém que se deve adorar.
Leitor – Disse-lhe Jesus:
Jesus – Mulher, acredita em Mim: Vai chegar a hora em que nem neste monte nem em Jerusalém adorareis o Pai. Vós adorais o que não conheceis; nós adoramos o que conhecemos, porque a salvação vem dos judeus. Mas vai chegar a hora – e já chegou – em que os verdadeiros adoradores hão-de adorar o Pai em espírito e verdade, pois são esses os adoradores que o Pai deseja. Deus é espírito e os seus adoradores devem adorá-l’O em espírito e verdade.
Leitor – Disse-Lhe a mulher:


Samaritana – Eu sei que há-de vir o Messias, isto é, Aquele que chamam Cristo. Quando vier, há-de anunciar-nos todas as coisas.
Leitor –  Respondeu-lhe Jesus:


Jesus – Sou Eu, que estou a falar contigo.
Leitor – Nisto, chegaram os discípulos e ficaram admirados por Ele estar a falar com aquela mulher, mas nenhum deles Lhe perguntou: «Que pretendes?», ou então: «Porque falas com ela?». A mulher deixou a bilha, correu à cidade e falou a todos:
Samaritana – Vinde ver um homem que me disse tudo o que eu fiz. Não será Ele o Messias?
Leitor – Eles saíram da cidade e vieram ter com Jesus. Entretanto, os discípulos insistiam com Ele, dizendo:
Discípulos – Mestre, come.
Leitor – Mas Ele respondeu-lhes:
Jesus – Eu tenho um alimento para comer que vós não conheceis.
Leitor – Os discípulos perguntavam uns aos outros:
Discípulos – Porventura alguém Lhe trouxe de comer?
Leitor – Disse-lhes Jesus:
Jesus – O meu alimento é fazer a vontade d’Aquele que Me enviou e realizar a sua obra. Não dizeis vós que dentro de quatro meses chegará o tempo da colheita? Pois bem, Eu digo-vos: Erguei os olhos e vede os campos, que já estão loiros para a ceifa. Já o ceifeiro recebe o salário e recolhe o fruto para a vida eterna e, deste modo, se alegra o semeador juntamente com o ceifeiro. Nisto se verifica o ditado: ‘Um é o que semeia e outro o que ceifa’. Eu mandei-vos ceifar o que não trabalhastes. Outros trabalharam e vós aproveitais-vos do seu trabalho.
Leitor – Muitos samaritanos daquela cidade acreditaram em Jesus, por causa da palavra da mulher, que testemunhava:
Samaritana – Ele disse-me tudo o que eu fiz.
Leitor – Por isso os samaritanos, quando vieram ao encontro de Jesus, pediram-Lhe que ficasse com eles. E ficou lá dois dias. Ao ouvi-l’O, muitos acreditaram e diziam à mulher:



Samaritanos – Já não é por causa das tuas palavras que acreditamos. Nós próprios ouvimos e sabemos que Ele é realmente o Salvador do mundo.

quinta-feira, 13 de março de 2014

Por quem chora Fátima Campos Ferreira?

A triste comunicação social!


Às 3 e tal da manhã, a RTP 1 transmite em diferido um programa que transmitira pouco tempo antes na RTP Informação. 
Vítor Gonçalves modera intervenções de Fátima Campos Ferreira, padre Anselmo Borges e padre Vaz Pinto.
A que propósito o padre Anselmo Borges a comentar a nível nacional o Patriarca Policarpo, nos instantes que seguem a sua morte? Ele bem manifestou o seu agrado por este espaço para se manifestar!
O padre Vaz Pinto desculpou-se por não estar com roupas próprias para aparecer na televisão, mas tinha sido surpreendido pela notícia do óbito em Cascais durante o jantar e tinham-lhe telefonado para aparecer na televisão e ele foi a correr, sem sequer mudar de roupa.
É importante aparecer na televisão. Mesmo para dizer disparates. Basta rever o programa.
Quando o moderador perguntou ao padre Vaz Pinto qual a herança do cardeal Policarpo, o homem ficou mudo. Ficou instantes sem saber o que dizer. Por fim, lá saiu: Assim, de repente... precisaria de algum tempo para pensar. Depois dispersa-se pela cultura e tudo o mais que falaram do Patriarca defunto...
ICNE? - por exemplo.
Fica-me a humanidade de Fátima Campos Ferreira, evidente amiga do Patriarca.
Ela chora, no final do programa. Sim, parece que para alguém o bispo valia.

Orlando de Carvalho

quarta-feira, 12 de março de 2014

Um padre deve ser

Este texto foi-me apresentado como de um manuscrito medieval encontrado em Salzburgo.

Um padre deve ser:
Ao mesmo tempo grande e pequeno,
Nobre de espírito, como se tivesse sangue real,
Simples e natural, como de estirpe camponesa,
Um herói na conquista de si mesmo,
Um homem que lutou com Deus,
Uma fonte de santificação,
Um pecador que foi perdoado por Deus,
Senhor de seus desejos,
Um servidor para os tímidos e fracos,
Que não se abaixa diante dos poderosos,
Mas se curva diante dos pobres,
Discípulo de seu Senhor,
Cabeça de seu rebanho,
Um mendigo com as mãos generosamente abertas,
Um portador de inumeráveis dons,
Um homem como num campo de batalha,
Uma mãe para reconfortar os doentes,
Com a sabedoria da idade, e a confiança da criança,
Voltado para o alto, mas com os pés na terra,
Feito para a alegria,
Conhecedor do sofrimento,
Separado de toda inveja, clarividente,
Que fala com franqueza,
Um amigo da paz,
Um inimigo da inércia,
Sempre constante...
Tão diferente de mim!

Missa com as crianças neste Domingo II da Quaresma


15/16 Março 2014 – Domingo II da Quaresma

Animação de Missa com crianças


Vocação de Abraão, pai do povo de Deus
Leitor 1 - Admonição
Deus chamou Abraão, há muito, muito tempo atrás. Abraão deixou tudo e seguiu o chamamento de Deus. Deus recompensou Abraão e prometeu-lhe que seria o pai de muitos povos. Abraão acreditou em Deus. Os judeus, os cristãos e os muçulmanos, todos acreditam no mesmo Deus, o Deus de Abraão. Este é o esquema da descendência de Abraão.



Pode ser projectado ou exibido através de 10 cartazes erguidos por crianças/catekistas
LEITURA I Gén 12, 1-4a
Narrador – Leitura do Livro do Génesis (pausa)
Naqueles dias, o Senhor disse a Abraão:
Deus – Deixa a tua terra, a tua família e a casa de teu pai e vai para a terra que Eu te indicar. Farei de ti uma grande nação e te abençoarei; engrandecerei o teu nome e serás uma bênção. Abençoarei a quem te abençoar, amaldiçoarei a quem te amaldiçoar; por ti serão abençoadas todas as nações da terra.
Narrador – Abraão partiu, como o Senhor lhe tinha ordenado.
(pausa) Palavra do Senhor.
LEITURA II 2 Tim 1, 8b-10
Leitor 2

Leitura da Segunda Epístola do apóstolo São Paulo a Timóteo (pausa)
Caríssimo: Sofre comigo pelo Evangelho, apoiado na força de Deus. Ele salvou-nos e chamou-nos à santidade, não em virtude das nossas obras, mas do seu próprio desígnio e da sua graça. Esta graça, que nos foi dada em Cristo Jesus, desde toda a eternidade, manifestou-se agora pelo aparecimento de Cristo Jesus, nosso Salvador, que destruiu a morte e fez brilhar a vida e a imortalidade, por meio do Evangelho.
(pausa)
Palavra do Senhor.
EVANGELHO Mt 17, 1-9

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus
Naquele tempo, Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João, seu irmão, e levou-os, em particular, a um alto monte e transfigurou-Se diante deles: o seu rosto ficou resplandecente como o sol e as suas vestes tornaram-se brancas como a luz. E apareceram Moisés e Elias a falar com Ele. Pedro disse a Jesus: «Senhor, como é bom estarmos aqui! Se quiseres, farei aqui três tendas: uma para Ti, outra para Moisés e outra para Elias». Ainda ele falava, quando uma nuvem luminosa os cobriu com a sua sombra e da nuvem uma voz dizia: «Este é o meu Filho muito amado, no qual pus toda a minha complacência. Escutai-O». Ao ouvirem estas palavras, os discípulos caíram de rosto por terra e assustaram-se muito. Então Jesus aproximou-Se e, tocando-os, disse: «Levantai-vos e não temais». Erguendo os olhos, eles não viram mais ninguém, senão Jesus. Ao descerem do monte, Jesus deu-lhes esta ordem: «Não conteis a ninguém esta visão, até o Filho do homem ressuscitar dos mortos».
Palavra da salvação.
ENCENAÇÃO enquanto o presidente proclama o Evangelho. Proclama ao ritmo da encenação.
Jesus, Pedro, Tiago e João sobem o Monte (presbitério).
Jesus passa por trás do altar, veste uma túnica branca (ou deixa cair algo que trazia sobre a túnica branca) e acendem-se projectores, sobre Jesus.
Moisés e Elias surgem do fundo do presbitério e conversam com Jesus. Moisés traz uma Bíblia na mão. Elias traz um candelabro de sete braços.
Duas pessoas deslocam uma nuvem branca (cartolina, esferovite…), que estava encostada/escondida a um lado e colocam-na atrás de Jesus.
Ao mesmo tempo que Jesus avança para junto dos discípulos, a nuvem encobre Moisés e Elias, que assim desaparecem e se vão embora.
Jesus e os discípulos retiram-se do presbitério.
Ofertório
Comentador:
Na quinta-feira, 13 de Março, celebrámos o primeiro aniversário da eleição do papa Francisco que vamos comemorar nesta Eucaristia. Na procissão do Ofertório vêm algumas bandeiras com que, no final da missa, mostraremos a nossa alegria e daremos graças por este dom que Deus nos concedeu, o papa Francisco. A chave que também apresentamos neste Ofertório simboliza a nossa comunhão com o sucessor de Pedro em Roma, a quem Jesus entregou as Chaves do reino dos Céus, na Terra. (Pode ser dito em modo de oração)
1 – Hóstias e Vinho
2 – Chave grande em esferovite ou algo que sirva para o efeito
3 – Uma bandeira erguida do papa Francisco
4 – Cesto com pequenas bandeiras do papa Francisco
5 – Cestos do dinheiro
ACÇÃO DE GRAÇAS (depois da)
São distribuídas as bandeiras às crianças (pelo menos) que participam na missa. Parabéns cantados ao Papa com agitação das bandeiras.


Orlando de Carvalho

quinta-feira, 6 de março de 2014

Entrevista concedida pelo papa Francisco a Ferruccio de Bortoli


Passou-se um ano desde aquela simples " boa noite" que mudou o mundo. O período de doze meses, vivido de modo intenso - não só para a vida da Igreja – foi curto para a grande quantidade de novas e profundas inovações pastorais de Francisco. Estamos numa pequena sala de Santa Marta. Uma única janela abre-se para um pequeno pátio interno deixando ver um pequeno ângulo de céu azul. O dia está bonito, primaveril, quente. O Papa surge de repente, quase bruscamente, de uma porta com ar descontraído, sorrindo. Olha divertido as várias notas que a ansiedade de um repórter senil colocara sobre uma mesa. " Será que eles serão úteis? Sim? Tudo bem." O balanço de um ano? Não, não gosto de balanços. "Faço-os apenas quinzenalmente com o meu confessor.

Papa Francisco em entrevista, um ano após a eleição

Santo Padre, muitas vezes telefona a quem lhe pede ajuda. E às vezes não acreditam que seja o senhor.

Sim, já aconteceu. Quando alguém liga é porque tem vontade de falar, quer fazer uma pergunta, pedir um conselho. Quando era padre em Buenos Aires era mais simples. E para mim continua a ser um hábito. Um serviço. Está dentro de mim. É verdade que agora não é tão fácil fazê-lo, tendo em conta a quantidade de gente que me escreve.

Há algum contacto, um encontro que recorde com
articular afecto?

Uma senhora viúva, de 80 anos, que perdeu o filho. Escreveu-me. E agora telefono-lhe todos os meses. Ela está feliz. Faço de padre. Agrada-me.

O relacionamento com o seu predecessor: alguma vez
pediu algum conselho a Bento XVI?

Sim. O papa emérito não é uma estátua num museu. É uma instituição. Não estávamos habituados. Há 60 ou 70 anos o bispo emérito não existia. Veio após o Concílio [Vaticano II, 1962-1965]. Hoje é uma instituição. O mesmo deve acontecer para o papa emérito. Bento é o primeiro e talvez haja outros. Não o sabemos.
Ele é discreto, humilde, não quer perturbar. Conversámos e decidimos em conjunto que seria melhor que visse gente, saísse e participasse na vida da Igreja. Uma vez veio aqui para a bênção da estátua de S. Miguel Arcanjo, depois almoçou na Casa de Santa Marta, e após o Natal dirigi-lhe o convite para participar no consistório e ele aceitou. A sua sabedoria é um dom de Deus.
Alguns quiseram que se tivesse retirado para uma abadia beneditina longe do Vaticano. Eu pensei nos avós que com a sua sabedoria, os seus conselhos, dão força à família e não merecem acabar numa casa de repouso.

A sua maneira de governar a Igreja parece-nos desta maneira: o senhor ouve todos e decide sozinho. Um pouco como o padre geral dos Jesuítas. O papa é um homem só?

Sim e não. Entendo o que quer dizer-me. O papa não está só no seu trabalho porque é acompanhado e aconselhado por muitos. E seria um homem só se decidisse sem ouvir ou fazendo de conta que ouve. Mas há um momento, quando se trata de decidir, de colocar a assinatura, em que está sozinho com o seu sentido de responsabilidade.

O senhor inovou, criticou algumas atitudes do clero, sacudiu a Cúria. Com algumas resistências, algumas oposições. A Igreja já mudou o que desejou há um ano?

Em Março de 2013 não tinha qualquer projecto de mudança da Igreja. Não esperava esta transferência de diocese, para dizer assim. Comecei a governar procurando colocar em prática aquilo que emergiu no debate entre os cardeais nas várias congregações [reuniões ocorridas antes do conclave para a eleição do papa]. No meu modo de agir espero que o Senhor me dê a inspiração.
Dou-lhe um exemplo. Falou-se do cuidado espiritual das pessoas que trabalham na Cúria, e começaram a fazer-se retiros espirituais. Devia dar-se mais importância aos Exercícios Espirituais anuais: todos têm direito a passar cinco dias em silêncio e meditação, enquanto que antes, na Cúria, ouviam-se três pregações por dia e depois alguns continuavam a trabalhar.

A ternura e a misericórdia são a essência da sua mensagem pastoral…

É do Evangelho. É o centro do Evangelho. De outra maneira não se compreende Jesus Cristo, a ternura do Pai que o envia a ouvir-nos, a curar-nos, a salvar-nos.

Mas essa mensagem foi compreendida? O senhor disse que a “franciscomania” não duraria muito. Há alguma coisa na sua imagem pública que não lhe agrada?

Agrada-me estar entre as pessoas, junto de quem sofre, ir às paróquias. Não me agradam as interpretações ideológicas, uma certa mitologia do papa Francisco. Quando se diz, por exemplo, que saio à noite do Vaticano para andar de comer de comer aos sem-abrigo na Via Ottaviano. Nunca me veio isso à ideia. Sigmund Freud dizia, se não me engano, que em cada idealização há uma agressão. Desenhar o papa como uma espécie de super-homem, uma espécie de estrela, parece-me ofensivo. O papa é um homem que ri, chora, dorme tranquilo e tem amigos como todos. Uma pessoa normal.

Tem nostalgia pela sua Argentina?

A verdade é que não tenho nostalgia. Desejava ir ver a minha irmã, que está doente, é a última de nós cinco. Gostaria de vê-la, mas isso não justifica uma viagem à Argentina: telefono-lhe e isso chega. Não penso ir antes de 2016, porque na América Latina já estive no Rio de Janeiro. Agora devo ir à Terra Santa, à Ásia e depois a África.

Há pouco tempo renovou o passaporte argentino. O senhor é, todavia, um chefe de estado.

Renovei-o porque estava a caducar.

Desagradaram-lhe as acusações de marxismo, vindas sobretudo dos EUA, após a publicação da exortação “A alegria do Evangelho”?

Absolutamente nada. Nunca partilhei a ideologia marxista porque não é verdadeira, mas conheci muitas pessoas boas que professavam o marxismo.

Os escândalos que abalaram a vida da Igreja estão felizmente para trás. No que diz respeito ao tema delicado dos abusos sobre menores, um apelo assinado, entre outros, pelos filósofos Besançon e Scruton para que o senhor faça ouvir a sua voz contra os fanatismos e a má consciência do mundo secularizado que respeita pouco a infância.

Quero dizer duas coisas. Os casos de abusos são tremendos porque deixaram feridas profundíssimas. Bento XVI foi muito corajoso e abriu uma estrada. A Igreja fez muito a este respeito. Talvez mais que todos. As estatísticas sobre o fenómeno da violência sobre as crianças são impressionantes, mas mostram também com clareza que a grande maioria dos abusos ocorre no ambiente familiar e de proximidade. A Igreja católica é talvez a única instituição pública a que se movimentou com transparência e responsabilidade. Ninguém fez mais. E no entanto a Igreja é a única a ser atacada.

Santo Padre, o senhor diz «os pobres evangelizam-nos». A atenção à pobreza, a marca mais forte da sua mensagem pastoral, é considerada por alguns observadores como uma profissão do pauperismo. O Evangelho não condena o bem-estar. E Zaqueu era rico e caritativo.

O Evangelho condena o culto do bem-estar. O pauperismo é uma das interpretações críticas. Na Idade Média havia muitas correntes que advogavam o pauperismo. S. Francisco teve a genialidade de colocar o tema da pobreza no caminho evangélico.
Jesus diz que não se podem servir dois senhores, Deus e a riqueza. E quando formos julgados no juízo final (Mateus, capítulo 25), contará a nossa proximidade à pobreza. A pobreza distancia da idolatria, abre a porta à Providência. Zaqueu devolve metade da sua riqueza aos pobres. E a quem tem os celeiros cheios do próprio egoísmo, o Senhor, no fim, pede-lhe contas. O que eu penso da pobreza expressei-o bem na “Evangelii Gaudium”.

O senhor apontou na globalização, sobretudo financeira, alguns dos males que agridem a humanidade. Mas a globalização arrancou da indigência milhões de pessoas. Deu esperança, um sentimento que não deve confundir-se com optimismo.

É verdade, a globalização salvou da pobreza muitas pessoas, mas condenou outras tantas a morrer de fome, porque com este sistema económico torna-se selectiva. A globalização que a Igreja concebe assemelha-se não a uma esfera, na qual cada ponto é equidistante do centro e na qual, portanto, se perde a particularidade dos povos, mas a um poliedro, com as suas diferentes faces, através do qual cada povo conserva a própria cultura, língua, religião, identidade. A actual globalização “esférica” económica, e sobretudo financeira, produz um pensamento único, um pensamento débil. No centro não está a pessoa humana, só o dinheiro.



O tema da família é central na actividade do conselho dos oito cardeais. Desde a exortação “Familiaris consortio”, de João Paulo II, mudaram muitas coisas. Estão programados dois sínodos. Esperam-se grandes novidades. O senhor disse dos divorciados: não vamos condená-los, vamos ajudá-los.

É um longo caminho que a Igreja deve fazer. Um processo que o Senhor quer. Três meses após a minha eleição, foram-me colocados os temas para o sínodo, tendo-se proposto discutir a contribuição de Jesus para o homem contemporâneo. Mas no fim, gradualmente – o que para mim foram sinais da vontade de Deus – optou-se debater a família, que atravessa uma crise muito séria. É difícil formá-la. Os jovens casam-se pouco. Há muitas famílias separadas nas quais o projecto de vida comum fracassou. Os filhos sofrem muito.
Nós devemos dar uma resposta. E isso que o consistório e o sínodo estão a fazer. É preciso evitar ficar pela superfície. A tentação de resolver cada problema com a casuística é um erro, uma simplificação de coisas profundas, como faziam os fariseus, uma teologia muito superficial. É à luz da reflexão profunda que se podem enfrentar seriamente as situações particulares, mesmo aquelas dos divorciados, com profundidade pastoral.

Porque é que o relatório do cardeal Walter Kasper no último consistório (um abismo entre doutrina sobre o matrimónio e a família e a vida real de muitos cristãos) dividiu tanto os membros do Colégio Cardinalício? Como pensa que a Igreja pode percorrer estes dois anos de caminho fatigante e chegar a um consenso amplo e sereno? Se a doutrina é sólida, porque é que é necessário o debate?

O cardeal Kasper fez uma apresentação belíssima e profunda, que será em breve publicada em alemão, em que aborda cinco pontos – o quinto era o dos segundos matrimónios. Ficaria preocupado se no consistório não tivesse havido uma discussão intensa, porque não teria servido para nada.
Os cardeais sabiam que podiam dizer aquilo que queriam, e apresentaram muitos pontos de vista distintos, que nos enriqueceram. As discussões abertas e fraternas fazem crescer o pensamento teológico e pastoral. Disto não tenho medo, antes o procuro.

Num passado recente era habitual o apelo aos chamados «valores não negociáveis», sobretudo na bioética e na moral sexual. O senhor não retomou esta fórmula. Os princípios doutrinais e morais não mudaram. Esta escolha quererá talvez indicar um estilo menos perceptivo e mais respeitador da consciência pessoal?

Nunca entendi a expressão «valores não negociáveis». Os valores são valores, e basta, não posso dizer que entre os dedos de uma mão há um que é menos útil do que outro. Por isso não entendo em que sentido podem haver valores negociáveis. O que devia dizer sobre o tema da vida, escrevi-o na exortação “Evangelii Gaudium”.

Muitos países legislam as uniões civis. É um caminho que a Igreja pode compreender? E até que ponto?
O matrimónio é entre um homem e uma mulher. Os estados laicos querem justificar as uniões civis para legislar diferentes situações de convivência, motivados pela exigência de legislar aspectos económicos entre as pessoas, como por exemplo assegurar a assistência na saúde. Trata-se de acordos de convivência de vária natureza, de que não saberia elencar as diferentes formas. É preciso ver os diferentes casos e avaliá-los na sua variedade.

Como será promovido o papel da mulher na Igreja?

Também aqui a casuística não ajuda. É verdade que a mulher pode e deve estar mais presente nos lugares de decisão da Igreja. Mas chamarei a isto uma promoção de tipo funcional. Só assim não se faz muito caminho.
É preciso sobretudo pensar que a Igreja tem o artigo feminino «a»: é feminina desde as origens. O grande teólogo Urs von Balthasar trabalhou muito sobre este tema: princípio mariano guia a Igreja juntamente com o princípio petrino. A Virgem Maria é mais importante do que qualquer bispo e de qualquer apóstolo. O aprofundamento teologal está em curso. O cardeal Rylko, com o Conselho dos Leigos, está a trabalhar nesta direcção com muitas mulheres especialistas em várias matérias.

Meio século após a encíclica “Humanae vitae”, de Paulo VI, a Igreja pode retomar o tema do controlo dos nascimentos. O cardeal Martini, seu confrade, estava convicto de que tinha chegado o momento.

Tudo depende de como é interpretada a “Humanae vitae”. O próprio Paulo VI, no fim, recomendava aos confessores muita misericórdia, atenção às situações concretas. Mas a sua genialidade foi profética, teve a coragem de ir contra a maioria, de defender a disciplina moral, de exercitar um travão cultural, de opor-se ao neomalthusianismo presente e futuro.
A questão não está em mudar a doutrina, mas de se ter mais profundidade e fazer com que a pastoral tenha em conta as situações e do que para as pessoas é possível fazer. Também disto se falará no caminho do sínodo.

A ciência evolui e redesenha os confins da vida. Faz sentido prolongar artificialmente a vida em estado vegetativo? O testamento biológico pode ser uma solução?

Não sou especialista nos argumentos biológicos. E temo que cada minha frase possa ser equivocada. A doutrina tradicional da Igreja diz que ninguém é obrigado a usar meios extraordinários quando se sabe que está numa fase terminal. Na minha pastoral, nestes casos, aconselhei sempre os cuidados paliativos. Em casos mais específicos é bom recorrer, se necessário, ao conselho dos especialistas.

A próxima viagem à Terra Santa levará a um acordo de intercomunhão com os ortodoxos que Paulo VI, há 50 anos, quase chegou a assinar com o patriarca Atenágoras?

Estamos todos impacientes por obter resultados “fechados”. Mas o caminho da unidade com os ortodoxos quer dizer sobretudo caminhar e trabalhar conjuntamente. Aos cursos de catequese em Buenos Aires iam diversos ortodoxos. Eu passava o Natal e o 6 de Janeiro com os seus bispos, que por vezes pediam conselho aos nossos departamentos diocesanos.
Não sei se é verdadeiro o episódio que se conta de Atenágoras, que teria proposto a Paulo VI que caminhassem juntos e enviassem todos os teólogos para uma ilha, para discutirem entre eles. A teologia ortodoxa é muito rica. E penso que eles têm actualmente grandes teólogos. A sua visão da Igreja e da sinodalidade é maravilhosa.

Dentro de alguns anos a China será a maior potência mundial, com a qual o Vaticano não tem relações. Matteo Ricci era jesuíta, como o senhor.

Estamos próximos da China. Enviei uma carta ao presidente Xi Jinping quando foi eleito, três dias depois de mim. E ele respondeu-me. Há relações. É um grande povo ao qual quero bem.

Porque é que o Santo Padre nunca fala da Europa? O que é que não o convence no projecto europeu?

Lembra-se do dia em que falei da Ásia? O que é que eu disse então? Eu não falei nem da Ásia, nem da África, nem da Europa. Só da América Latina quando estive no Brasil e quando devo receber a Comissão para a América Latina. Não é ainda a ocasião para falar da Europa. Ela virá.

Que livro está a ler actualmente?

“Pedro e Madalena”, de Damiano Marzotto, sobre a dimensão feminina da Igreja. Um livro belíssimo.

E não consegue ver nenhum filme, que é outra das suas paixões? “A grande beleza” venceu o Óscar [para melhor filme em língua estrangeira]. Vai vê-lo?
Não sei. O último filme que vi foi “A vida é bela”, de Benigni. E antes revi “A estrada” (“La strada”), de Fellini. Uma obra-prima. Também gostava de “Wajda”…

S. Francisco teve uma juventude livre de preocupações. Pergunto-lhe: nunca namorou?

No livro “Papa Francisco – Conversas com Jorge Bergoglio” conto que tive uma namorada aos 17 anos. E digo o mesmo no livro “O céu e a terra”, que escrevi com [o rabi] Abraham Skorka. No seminário uma rapariga fez-me voltar a cabeça durante uma semana.

E como acabou, se não é indiscrição?

Eram coisas de jovens. Falei disso com o meu confessor.(Grande sorriso)

Obrigado Padre Santo.


Eu é que agradeço.

Entrevista do Santo Padre ao director do Corriere della Sera, Ferruccio de Bortoli, publicada em 5 de Março de 2014, neste jornal.
Tradução directa e através de diversos sites.