quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Notas sobre a formação para catequistas (1)

A formação de catequistas realiza-se em grupo. Pela partilha de conhecimentos adquiridos e em aquisição e de experiências vividas.

A formação leva em conta a experiência do catequista. Ilumina esta experiência e aproveita-se dela.

A formação opera uma transformação. Suscita e faz crescer a relação do catequista com Aquele que ele anuncia.

A formação nunca está terminada. Os catequizandos são diferentes de ano para ano e a catequese actualiza-se para servir os catequizandos, assim também os catequistas.

Orlando de Carvalho

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Parábolas e catequese


A pedagogia da parábola é de levantar questões e não de dar respostas.



Um idoso colocou a seguinte questão a um grupo de jovens:

- Qual é o momento em que a noite acaba e começa o dia?



Eles foram respondendo:

- Quando consigo ver a silhueta das árvores…

- Quando o galo canta…

- Quando os raios solares me despertam…

- Quando consigo distinguir ao longe um coelho de uma lebre…



O idoso sábio respondeu então:

- É quando olhares o rosto de uma pessoa e nele reconheceres o do teu irmão ou da tua irmã. Até então, será noite no teu coração.



(história da sabedoria popular)



Orlando de Carvalho

Notas sobre a formação para catequistas (1)


A formação de catequistas realiza-se em grupo. Pela partilha de conhecimentos adquiridos e em aquisição e de experiências vividas.



A formação leva em conta a experiência do catequista. Ilumina esta experiência e aproveita-se dela.



A formação opera uma transformação. Suscita e faz crescer a relação do catequista com Aquele que ele anuncia.



A formação nunca está terminada. Os catequizandos são diferentes de ano para ano e a catequese actualiza-se para servir os catequizandos, assim também os catequistas.



Orlando de Carvalho

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Maximiliano Maria Kolbe



Em 8 de Janeiro de 1894, Maria Kolbe dava à luz o segundo dos três filhos com que o seu casamento com Júlio Kolbe seria abençoado. O bebé foi baptizado na paróquia de Pabiance com o nome de Raimundo Kolbe. A família residia em Zdunska Wola, perto de Lodz, numa zona da

Polónia então ocupada pela Rússia. Maria e Júlio eram leigos franciscanos (Ordem Terceira de S. Francisco), muito devotados a Maria, e foi essa a maneira de viver a fé que ensinaram aos filhos.

Raimundo era uma criança muito irrequieta. Certa vez, tinha ele doze anos, a mãe, muito zangada, repreendeu-o gravemente, concluindo com esta pergunta: “A continuares a portar-te desta maneira, que pensas tu fazer da tua vida?

Que futuro vais tu ter?”. Mal sabia Maria Kolbe o contributo que estava a dar para o futuro do seu filho ao falar-lhe daquela maneira. Entretanto, com o passar dos dias a mãe notou que a atitude de Raimundo se estava a modificar.

Raimundo passava agora horas seguidas junto do pequeno altar doméstico dedicado a Nossa Senhora de Czestochova, a rezar e a chorar.

Depois de muito insistir com o filho, Maria conseguiu que ele lhe revelasse o que se passava.

Logo na noite daquele dia, Raimundo reflectira no que a mãe lhe dissera e, orando no seu quarto, perguntara ele próprio à Mãe de Deus qual seria afinal o seu futuro. Por altura da sua Primeira Comunhão, ainda sem resposta, tinha-se dirigido a uma igreja e de novo questionara Nossa

Senhora. Então, teve uma visão em que a Mãe de Deus lhe apresentou duas coroas, uma branca e outra vermelha, e lhe pediu que escolhesse uma delas. Optar pela branca significava se conservaria puro para toda a vida, se optasse pela vermelha sofreria o martírio. Raimundo respondeu que desejava aceitar as duas coroas. Então a Rainha dos Céus sorrindo, desaparecera.

O negócio da família era a tecelagem o que apenas permitia ao casal providenciar o futuro de um dos filhos com estudos. Neste caso, o mais velho, o Francisco que foi enviado para um seminário menor dos frades franciscanos, em Lwow, na zona da Polónia ocupada pela Áustria.

Contudo, um farmacêutico da cidade em que moravam interessou-se por Raimundo e ajudou financeiramente para que ele se pudesse juntar ao irmão no seminário, em 1907.

Raimundo distinguiu-se nas matemáticas e na física, parecendo ter um futuro brilhante na ciência. Também mostrou grande interesse e habilidade para estratégia militar, o que, aliado ao seu patriotismo, o fez esquecer durante algum tempo o seu fervor em se tornar padre, em favor de uma carreira militar.
Maximiliano Maria Kolbe em 1937

Entretanto, o irmão mais novo, José, juntou-se aos outros dois no seminário.

Antes que Raimundo revelasse a sua intenção de se tornar soldado, a mãe anunciou que, estando todos os seus filhos no seminário, ela e o marido tinham decidido seguir a vida religiosa. Para não contrariar a vontade dos pais, Raimundo desistiu da carreira militar e entrou para o noviciado dos franciscanos conventuais a 4 de Setembro de 1910, mudando o nome de Raimundo para Maximiliano.

O pai entrou para o noviciado franciscano, que abandonaria para abrir uma livraria religiosa. Mais tarde juntar-se-ia a um exército de libertação que combatia o domínio russo e acabou por ser enforcado por estes como traidor.

A mãe tomou o hábito das beneditinas.

De 1912 a 1919 ele estudou, em Roma, filosofia e teologia.

Em 1 de Novembro de 1914 formulou os votos perpétuos e juntou “Maria” ao seu nome, passando a chamar-se Maximiliano Maria Kolbe. Abrão ao responder ao chamamento de Deus viu o seu nome mudado para Abraão, Fernando Bulhões ao abraçar um futuro ao serviço do

Evangelho passou a chamar-se António (Santo António de

Lisboa), assim também agora Raimundo Kolbe tornava-se

Maximiliano Maria Kolbe.

A 16 de Outubro de 1917 Maximiliano Kolbe, com mais seis irmãos franciscanos, fundou a Milícia da Imaculada ou Cruzada de Maria Imaculada, uma associação que se destinava a divulgar o culto de Maria, e a difundir a Medalha Milagrosa, como forma de combater os pecadores, os heréticos e os cismáticos, particularmente os maçónicos (mais tarde, também os comunistas), fazendo-os regressar ao Coração Imaculado de Maria. E armaram-se a si próprios Cavaleiros da Imaculada. Ele não sabia, porque os meios de comunicação não eram assim tão rápidos, mas isto aconteceu precisamente 3 dias após o milagre do sol, em 13 de Outubro desse ano, em Fátima. Para esta decisão muito terá contribuído o triste espectáculo da comemoração do segundo centenário da maçonaria com desfiles na Cidade

Santa, ostentando cartazes onde se lia “Satanás reinará no Vaticano e o Papa será seu escravo”.

Em 28 de Abril de 1918 Frei Maximiliano era ordenado presbítero, em Roma.
Com 13 anos

Por esta altura, a sua saúde começou a fraquejar. Ele contraiu tuberculose. Porém a sua dedicação a Maria devora-o e consome-lhe todo o seu tempo. Acusam-no muitas vezes de ser vagaroso, pois ele esconde que age com movimentos lentos para evitar hemorragias.

O seu grande desejo é transmitir aos outros a veneração e o amor que sente pela Mãe de Deus. Traz sempre consigo medalhas milagrosas que distribui abundantemente.

Depois de terminar a Primeira Guerra Mundial, o Papa Pio XI declara Maria Imaculada, Rainha da Polónia. Em 1919 Maximiliano regressa à Polónia. Os médicos verificam que tem um pulmão inutilizado e outro bastante danificado e concluem que a sua doença é incurável.

Durante oito meses, entre 1920 e 1921, Kolbe permanece, por ordem dos seus superiores, num sanatório.

Pede e obtém autorização para editar uma publicação que sirva os fins da Milícia da Imaculada, tendo como condição conseguir obter suporte financeiro para tal. Faz-se pedinte.

Em Janeiro de 1922, inicia a publicação do jornal Cavaleiro da Imaculada. Com o auxílio financeiro de um padre americano compra maquinaria para poder imprimir por si próprio, o que faz baixar muito o custo da publicação.

O jornal vai tendo uma tiragem cada vez maior, o que obriga a mudanças de instalações. Mas os superiores não autorizam Kolbe a comprar terrenos para ampliar a obra.

Finalmente instala-se uma comunidade franciscana e uma oficina de tipografia em Teresin, a oeste de Varsóvia, numa propriedade doada pelo príncipe João Drucko-Lubecki.

Maximiliano começa por erigir uma estátua a Maria Imaculada.
Frei Maximiliano

Entretanto, o empreendimento editorial cresce. A tiragem do Cavaleiro da Imaculada, que é inicialmente de 5 mil, atinge em 1927, os 750 mil exemplares. Chegam a imprimir-se 10 publicações diferentes. Utiliza-se maquinaria de ponta e alguma inventada pelos próprios frades, que chegam a expor os seus inventos e a ganhar concursos de inventores. Em Teresin é consagrado o convento franciscano a que é dado o nome de Niepokalanow, isto é, Cidade da Imaculada. A este propósito diz Frei Maximiliano:  
“Este é um lugar escolhido por Maria Imaculada e destina-se exclusivamente a difundir o seu culto. Tudo o que existe na Cidade da Imaculada e o que vier a existir, a Ela pertence. O espírito monástico florescerá aqui e praticaremos a obediência e seremos pobres, no espírito de São Francisco”.

Tendo horizontes bastante largos, Maximiliano parte para o extremo oriente com quatro irmãos, em Março de 1930.

Chegam a Nagasaki, no Japão, a 24 de Abril desse ano, sem saberem uma palavra de japonês! Obtém autorização do bispo local para imprimir o Cavaleiro da Imaculada, a troco de leccionar Filosofia no seminário diocesano. Em 24 de Maio inicia-se a distribuição do Cavaleiro, em japonês, composto com o auxílio de um pastor metodista, entretanto convertido. Muitos acharam que Maximiliano Kolbe era maluco, pelo local que tinha escolhido para instalar a sua tipografia e a comunidade, e que baptizara como Jardins da Imaculada, embora essa escolha tivesse sido ditada pela falta de recursos financeiros. Todavia, quando foi lançada a bomba atómica sobre Nagasaki, e toda a cidade foi arrasada, nos Jardins da Imaculada apenas se registaram pequenos golpes devidos a estilhaços de vidros. É ainda hoje um Centro Franciscano no Japão.

Frei Maximiliano mostrou ser um missionário bastante dotado. Ele não se fechou na sua fé, mas procurou o que havia de bom no budismo e no xintoísmo e fez amizades entre os sacerdotes budistas. A edição japonesa do Cavaleiro da Imaculada atingiu 65 mil exemplares, porque não se reduzia à dimensão de um jornal para a comunidade católica, mas para toda a comunidade local.
Com dois irmãos franciscanos

A sua saúde continuava a deteriorar-se. Um médico japonês constatou que quatro quintos do seu pulmão estavam danificados, declarando que só por milagre ele podia continuar a viver e a trabalhar. Ainda assim esteve no Malabar tentando estabelecer uma terceira comunidade e uma terceira edição do Cavaleiro, mas não foi bem sucedido.

Em 1935, na Polónia, o Cavaleiro da Imaculada tinha uma tiragem mensal de 750 mil exemplares. O convento e a tipografia tinham-se expandido imenso. Iniciou-se a publicação de um jornal diário católico O Pequeno Diário, com uma tiragem de 137 mil exemplares nos dias de semana e de 225 mil aos domingos.

Em 1936 Maximiliano é chamado à Polónia e despede-se pela última vez do Japão, onde pensava que sofreria o martírio.

De facto, houve aí para ele algum martírio, uma pequena amostra: além de ser acometido por violentas dores de cabeça, tinha muitos abcessos no corpo provocados pela sua alergia à comida local, à qual nunca se conseguiu adaptar.

Em 8 de Dezembro de 1938, a estação de rádio da Cidade da Imaculada iniciou as suas emissões. Aí actuava uma orquestra formada por irmãos franciscanos. Quando rebenta a guerra, abortam outros planos: um era o envio de dois frades para aprenderem a pilotar a fim de fazerem a distribuição das várias publicações, outro era a produção de filmes.

O Cavaleiro da Imaculada provocou um surto de fé na Polónia, despertou as consciências para problemas como o aborto e preparou o povo polaco para ultrapassar a dureza e a crueldade da guerra que se avizinhava, como os seus bispos reconheceriam depois de terminada a guerra, numa carta enviada ao Santo Padre.

Em 1939, o convento da Cidade da Imaculada era provavelmente o maior do mundo. Albergava 13 padres, 18 noviços, 527 irmãos, 122 rapazes no seminário menor e 82 candidatos ao presbiterado. E era auto-suficiente, contando-se, entre os seus habitantes, cozinheiros, sapateiros, jardineiros, alfaiates, mecânicos, agricultores, médicos, dentistas, etc.
Bênção da Imagem de Nossa na cidade da Imaculada

Pouco antes do rebentar da Segunda Guerra Mundial,

Maximiliano dirigiu-se aos seus irmãos franciscanos sobre o sofrimento, dizendo-lhes que, quando aceite com amor, este criava aproximação a Maria. Depois mandou para casa a maior parte dos frades, recomendando-lhes que não se juntassem ao exército da resistência.

A 13 de Setembro de 1939, a Cidade da Imaculada foi ocupada pelo exército nazi e os seus habitantes foram deportados para a Alemanha. Entre eles, Maximiliano Kolbe. A 8 de Dezembro, na solenidade da Imaculada Conceição, os frades foram libertos e voltaram a casa.

Então Maximiliano e os seus irmãos passaram a desenvolver uma nova actividade. Deram abrigo a cerca de 3 mil refugiados polacos, dos quais 2 mil eram judeus. Ele dizia que tinham que fazer tudo o que estivesse ao seu alcance para ajudar aqueles pobres deserdados da sorte.

No início de 1941, os nazis permitiram que fosse publicado um número do Cavaleiro da Imaculada, esperando obter provas para prenderem Maximiliano Maria Kolbe. O padre não frustrou as expectativas dos nazis e desafiando-os, provoca a sua própria prisão ao escrever:

“Ninguém pode mudar a Verdade. O que podemos e devemos é procurar a Verdade e servi-la quando a encontramos. O verdadeiro conflito é o conflito interior. Entre os exércitos de ocupação e as hecatombes dos campos de extermínio, há dois inimigos irreconciliáveis no âmago de cada alma: bem e mal, pecado e amor. E de que servem as vitórias nos campos de batalha, se nós próprios somos derrotados no mais íntimo do nosso ser?”

Em 17 de Fevereiro de 1941, foi preso e enviado para a prisão

Pawiak, em Varsóvia, onde foi isolado para tratamento médico especializado. Em Março desse ano, um guarda das SS, as forças policiais nazis de má memória, vendo este homem com o seu hábito de frade e tendo a cintura cingida com um rosário, perguntou-lhe se acreditava em Cristo.

Perante a resposta tranquila “Sim, acredito”, o guarda agrediu-o. Repetidas vezes o guarda repetiu a mesma pergunta e, obtendo a mesma resposta, continuou a agressão sem misericórdia. Pouco depois o hábito franciscano foi despido e substituído pelo uniforme de prisioneiro.

A 28 de Maio, Maximiliano foi transferido com outros prisioneiros para Auschwitz. Foi-lhe dado um uniforme de condenado e marcado na pele com o número 16670.

O trabalho que lhe foi destinado foi o transporte de blocos de pedra para a construção do crematório. Em 31 de Maio, foi transferido com outros padres para a Secção Babice, dirigida pelo criminoso ex-condenado Krott, “O carniceiro”, com uma recomendação especial do comandante para que Krott curasse a preguiça daqueles homens. Os nazis utilizavam criminosos de delito comum para desempenharem algumas tarefas de vigilância e repressão nos campos de concentração. Maximiliano passou então, com os outros padres, a fazer o trabalho de lenhador, cortando e carregando grandes troncos de árvores. Apesar do estado do seu único pulmão, Kolbe era obrigado a correr todo o dia, ao som dos apitos dos guardas. Krott odiava Kolbe porque via a calma e tranquilidade com que aceitava o seu sofrimento e, por isso, dava-lhe trabalhos ainda mais pesados que aos seus companheiros. Quando estes pretendiam ajudá-lo, Kolbe rejeitava, com medo que eles depois sofressem represálias e dizia-lhes que Santa Maria o ajudaria e lhe daria as forças necessárias. Todo o tempo, ele ouvia confissões e celebrava a Eucaristia dentro das condições disponíveis naquele lugar, usando pão e vinho que conseguiam esconder disfarçadamente. Escreveu à mãe dizendo que não se preocupasse consigo ou com a sua saúde pois, o bom Deus que está em todo o lugar, nos sustenta a todos com o seu grande amor.

Um prisioneiro recorda que ele e outros rastejavam muitas vezes, durante a noite, para junto da cama do Padre Kolbe, para se confessarem e pedir apoio. O padre Kolbe exortava-os a perdoarem aos seus carrascos e a vencerem o mal com o bem.

 
A tipografia na Cidade da Imaculada.


Certo dia, Krott escolheu algumas pranchas especialmente pesadas e carregou-as pessoalmente às costas de Frei Kolbe, mandando-o correr. Quando ele tombou – não tombara também Jesus com a sua Cruz? – Krott pontapeou-o na barriga e na cara e mandou dar-lhe 50 chicotadas. Quando o pobre padre ficou inconsciente, Krott pensou que ele tinha morrido e mandou abandoná-lo num lamaçal. Os companheiros, porém, foram depois e transportaram Maximiliano Kolbe para o hospital do campo.

Apesar do seu estado de fraqueza e sofrimento, mesmo no hospital Kolbe celebrava o sacramento da confissão e animava os outros prisioneiros, falando-lhes do amor de Deus.

Nunca pensando em si, enquanto guardas e prisioneiros se odiavam mutuamente, o padre Maximiliano continuava a falar de amor e de perdão!

A comida servida aos prisioneiros era pouca e estes acotovelavam-se e empurravam-se para serem servidos primeiro.

Kolbe deixava-se sempre para o fim e acabava muitas vezes por não comer. Não se importava. Dizia que o seu objectivo não era o da maioria dos outros prisioneiros, sobreviverem e voltarem aos seus lares, o seu era, se necessário, dar a sua vida pelo bem dos outros homens.

De facto, os homens também corriam riscos quando se juntavam para ouvir as suas palavras encorajadoras, em segredo.

Alguns testemunhos sugerem que a sua presença só por si inspirava um ambiente de paz e santidade.

Havia uma regra no campo: quando um prisioneiro fugia, dez eram mortos em represália.

No dia 31 de Julho de 1941, de manhã, a sirene do campo anunciou que tinha havido uma fuga. Se até ao fim do dia não aparecessem os fugitivos, alguém sofreria represálias.

Na habitual chamada do final do dia, descobriu-se a falta de três prisioneiros. Um deles do bloco em que vivia o padre Kolbe. O comandante Fritch anunciou que, em represália pela fuga de cada um daqueles prisioneiros, seriam escolhi dos dez outros, dos blocos em que viviam os fugitivos, e colocados no Bunker. Os Bunker eram as células subterrâneas da fome. Depois de os algozes terem escolhido o grupo dos amaldiçoados, um deles, Francisco Gajowniczek, preso por colaborar com a resistência polaca, começa a chorar, em altos brados:

“Ai! Ai, a minha mulher e os meus pobres filhinhos!

Nunca mais os vou ver!”.

Um dos prisioneiros sai, então, das fileiras. É Frei Kolbe. Dirige-se ao comandante, que pergunta, arrogante:

“Que quer este porco polaco?”.

Kolbe diz que é um padre polaco e pede para tomar o lugar de um dos condenados, apontando para Gajowniczek.

A expressão do comandante espelha a surpresa que ao mesmo tempo invade o seu coração e ataca a sua inteligência.

Testemunhas dizem que ficou sem fala. Mas acede, com um gesto da mão, ao pedido do padre e dá-se a troca dos homens no grupo dos condenados. A grande ironia desta história é que o prisioneiro dado como fugitivo foi mais tarde encontrado afogado numa latrina do campo.

Quer dizer, afinal não tinha havido nenhuma fuga que justificasse as medidas tomadas pelo comandante do campo.

Estes são conduzidos ao Bunker. Estas celas, destinadas a prisioneiros condenados à morte, eram muito baixas e quase não circulava nelas o ar. Ao entrarem naquele lugar, os prisioneiros ficavam completamente nus e não lhes voltavam a ser fornecidos alimentos nem água, até morrerem de fome ou sede, lentamente. Este método satisfazia dois objectivos: em primeiro lugar aplacava a fúria dos nazis, humilhados no seu orgulho, cada vez que um prisioneiro era suficientemente sagaz para escapar à vigilância; por outro lado, os nazis pensavam, desta forma, evitar as fugas – por um lado, quem fugia sabia que condenava alguém, por outro lado, quem sabia de uma fuga, se a evitasse, denunciando os camaradas, evitava ser escolhido nas sortes para morrer na tortura do Bunker. O porteiro e intérprete Bruno Borgowiec foi testemunha ocular do que se passou nas duas semanas seguintes. Maximiliano Kolbe foi a força e o ânimo dos seus companheiros nesta derradeira caminhada.

Em todas as celas se rezava diariamente ao longo do dia. Os prisioneiros eram alimentados pelas orações de laudes, pelo rosário, pelos cânticos que entoavam, pelas invocações à protecção de Maria. Borgowiec diz que as celas e os corredores do Bunker mais pareciam as paredes de uma igreja acolhendo a ressonância das orações fervorosas e dos cânticos. O padre Kolbe presidia e os restantes respondiam em uníssono. E de tal modo costumavam estar embrenhados na oração que nem davam pela chegada dos homens das SS e só se calavam quando estes desatavam aos berros.

Então, alguns pediam um pouco de água e de pão, embora soubessem que não seriam atendidos. Quando algum com aspecto mais forte se aproximava do guarda SS, o cobarde antecipava-se, agredindo e matando, a pontapé ou a tiro, o prisioneiro esfomeado. Maximiliano não pedia nada, nem se queixava, apenas animava os pobres companheiros.

À medida que os homens enfraqueciam, o coro de orações e cânticos transformava-se em murmúrios. Murmúrios que certamente entoavam bem alto à vista do Filho de Maria.

Quando durante as visitas dos SS, a maioria dos prisioneiros jazia já no chão, Kolbe, de joelhos, ou de pé, continuava a encarar os guardas com ar alegre. Ao longo de duas semanas, todos foram morrendo, até restar apenas Maximiliano Kolbe e outros três, mas estes já inconscientes.

Aquelas celas eram agora necessárias para mortificar e assassinar pela fome novos prisioneiros e, para os responsáveis do campo, aqueles homens tornavam-se um incómodo ao demorar tanto tempo a morrer. Aquela situação já se arrastava por tempo demasiado! Assim, no dia 14 de Agosto, veio o chefe da enfermaria, um criminoso comum alemão chamado Bock, para acabar com a situação com uma injecção letal de ácido fénico. Depois dos outros três, com uma oração nos lábios e a humildade franciscana, Maximiliano estendeu o braço ao seu carrasco. O porteiro viu-o, depois de assassinado, sentado no chão, encostado à parede, os olhos abertos, a cabeça pendente, com uma expressão calma e radiante.

O seu corpo foi cremado no dia seguinte, 15 de Agosto, solenidade da Assunção de Nossa Senhora. Ele dissera em tempos:



“Gostaria de me colocar completamente ao serviço da Imaculada, e desaparecer sem deixar rasto, e que o vento levasse as minhas cinzas para os mais afastados locais do mundo”.

A cela em que Maximiliano Kolbe morreu é hoje um Oratório

Maximiliano Maria Kolbe foi um herói, um santo, um mártir que viveu aquilo que pregou, o amor total a Deus e aos homens.

Foi beatificado por Paulo VI em 1971, como Confessor.

Francisco Gajowniczsk esteve presente na cerimónia de beatificação do padre Kolbe. Morreu em 13 de Março de 1995, em Brzeg, na Polónia. Após a sua libertação de Auschwitz passou os cinquenta anos que ainda lhe restaram de vida, prestando homenagem ao homem que se ofereceu para morrer em seu lugar.

Kolbe foi canonizado a 10 de Outubro de 1982 como Mártir da Caridade. Durante a homilia, Sua Santidade João Paulo II salientou:
O Caminho já foi indicado por Jesus: primeiro a pregação, depois a Via Sacra e
a morte. No final a Ressurreição para a vida eterna.

«Maximiliano não morreu, mas “deu a vida... pelo irmão”.

Nesta morte, terrível do ponto de vista humano, está definitivamente

toda a grandeza do acto humano e da escolha humana: ele ofereceu-se à morte, por amor. Na sua morte humana estava o testemunho transparente dado a Cristo: o testemunho dado em Cristo da dignidade humana, da santidade da sua vida e da força salvífica da morte, na qual se manifesta a força do amor. É precisamente por isto que a morte de Maximiliano Kolbe se torna um sinal de vitória. É a vitória sobre todo o sistema de desprezo e de ódio contra o homem e contra o que é divino no homem, vitória semelhante à do Senhor Jesus Cristo no Calvário.

“Vós sereis meus amigos, se fizerdes o que vos mando” (João 15, 14).

A Igreja aceita este sinal de vitória, obtida através da força da Redenção de Cristo, com veneração e com gratidão. Procura pôr em relevo a eloquência com toda a humildade e amor.»

Maximiliano Maria Kolbe é patrono do combate à toxicodependência, dos toxicodependentes, das famílias, das pessoas detidas, dos jornalistas, dos prisioneiros, dos presos políticos e dos movimentos pró-vida.
 
Orlando de Carvalho, in Os Santos de João Paulo II, volume I. Adquira o livro. Encomende para lando.b.r@gmail.com